1. Trilogia virtuosa
A condição necessária da vida é a mudança. Dito de outro modo: o que não muda, morre. E como a reformulação das evidências pode escapar ao fastidio dos lugares comuns – eis o novo paradigma do discurso de políticos, consultores e comentaristas: inovação!
Que misterioso dom ou estranha fecundidade habita a terceira mezinha da trilogia da moda? O que liga em si – ou distingue as respectivas naturezas numa convergência virtuosa – a inovação, a produtividade e a competitividade?
Aplicadas ao universo específico do desempenho das economias, diferem, obviamente: a produtividade mede eficiências; a competitividade avalia a eficácia; a inovação confere a ambas a vitalidade que alimenta os correspondentes processos de melhoria. E como não há hierarquias onde divergem as naturezas, é claro que a eficácia dos confrontos (competitividade) só é possível num quadro de eficiência das operações (produtividade), sendo que a atmosfera propícia ao crescimento de ambas deve ser renovada pelo pulsar da mudança que atrai o novo e não apenas o que é diferente. É a incessante aventura da criatividade!
Se, para crescer, é preciso mudar – não é óbvio que toda a mudança implique crescimento. Mas o que é, afinal uma mudança virtuosa – chamemos-lhe inovação – no quadro das realidades que integram a actividade económica? De outro modo: face ao painel de opções que confrontam o gestor na tarefa permanente de garantir as condições de vida da empresa ou empresas que lhe cumpre dirigir, como impregnar no referido painel as escolhas que apliquem virtuosamente a ideia – no caso a dita inovação – identificada como chave do sucesso?
Sem cuidar de discutir em que limites é razoável identificar o crescimento como medida do sucesso, há-de reconhecer-se que a vida saudável de uma empresa (ou de outra qualquer organização) radica muitas vezes em mudanças (inovações) que não conduzem ao crescimento físico mas a transformações de outra natureza que vão sendo forjadas nas respostas sucessivas à crescente probabilidade de morrer… Inovar significa, portanto, potenciar transformações – que podem, ou não, significar crescimento. Aplicado ao governo das organizações – empresariais ou outras – transformar significa introduzir alterações na selecção e ordenamento dos recursos e circuitos, na definição e design dos produtos, nas tecnologias dos processos de criação, produção ou comercialização que permitam gerar diferenças – que apenas serão virtuosas se se traduzirem em vantagens.
2. Inovação e solidariedade
A questão da inovação, no plano nacional, inscreve-se, como muitas outras, no quadro da solidariedade: disposição, directriz, empenho permanente nas tarefas de que ninguém está dispensado, seja no que se refere ao Estado e à sua administração, seja no que respeita à sociedade civil. De facto, as aplicações práticas desta disposição e empenho deveriam conduzir a uma disciplina de relações ordenadas ao privilégio do interesse nacional, sendo certo que não há inovação que valha se as políticas públicas – administração do Estado, ensino e formação profissional, saúde e protecção social, economia, justiça e fiscalidade – continuarem a ignorar o imperativo da solidariedade: o poder político e a sua administração não podem constituir-se em super estrutura pública cada vez mais afastada da vida real, refugiando-se no reduto de um poder cada vez mais absoluto que seca as fontes da criatividade e da esperança.
Uma outra grande inovação que é urgente introduzir no desempenho nacional, passa simplesmente por adequar o discurso político, alimentado pela arenga de “sábios encartados” transvestidos de consultores, comentadores e similares, à realidade do país. A não ser assim, continuaremos a suportar infindáveis e vazias orações de sapiência, insuportáveis análises iluminadas pela “objectividade” de gráficos e quadros estatísticos produzidos por outros brilhantes teóricos de teses e modelos – e não sairemos da cepa torta pela singular razão de que não existe coincidência mínima entre os modelos analíticos dos “especialistas” e a incontornável e triste realidade da nossa amarga sobrevivência.
Não há inovação que possibilite o crescimento de uma economia regular que entrega mais do que a riqueza que pode produzir à avidez sem limites de um Estado que parece conviver, sem sobressaltos, com uma crescente actividade económica subterrânea. Inovar aqui, seria simplesmente obrigar o poder político e a administração que tutela a cumprir o dever de assegurar uma justa distribuição dos custos nacionais, identificando e punindo exemplarmente todos os que criminosamente fogem ao dever de solidariedade nacional, antes de executar os que, não fugindo, simplesmente não podem pagar o que o Estado lhes exige.
3. Para inovar – desmistificar!
A uma economia exausta não se pode pedir que inove. Para isso, sobra-lhe em angústia o que lhe falta em recursos, confiança e vigor. Não havendo economia sem empresas, em nome de que “inovação” o Estado persiste na incansável cruzada de secar as tesourarias esvaídas, cobrando impostos sobre proveitos fictícios e perpetuando pagamentos especiais por conta… de mortes anunciadas? Que sustentabilidade é possível para o sistema de segurança social num quadro fiscal que incentiva o desemprego porque vai eliminando empresas? Em nome de que “disciplina de Bruxelas” ou “efeitos da globalização” é justificável que as aquisições dos organismos do Estado privilegiem empresas e grupos financeiros em prejuízo de fornecedores nacionais? Será apenas porque, em muitos casos, os preços são mais baixos por efeito da não afectação do IVA, acrescendo outras facilidades proporcionadas por políticas de incentivo real às exportações, baseadas em regimes fiscais, esses sim, inovadores e inteligentes?
Enfim, como é possível persistir na mentira oficiosa que consagra a responsabilidade das empresas nacionais na fragilidade da nossa economia, quando é sabido que, entre muitas outras agressões, são obrigadas a suportar os custos dos benefícios com que o Estado português presenteia os grupos estrangeiros que se instalam no país a troco de vantagens inacessíveis aos nacionais? Vivemos todos uma grande mistificação: a dos discursos ocos que pretendem substituir as orientações estratégicas que não há por slogans que apenas alimentam ilusões. E a realidade aqui tão perto…!
J. Guia