A CRISE E OS POBRES

Dezembro 11, 2008

pao«As crises financeiras que se sucedem têm um efeito de cascata que afecta profundamente a economia mundial e as populações mais frágeis. Mostram que a finança é um factor chave da globalização».

Estas afirmações do Arcebispo de Rouen, Jean-Charles Descubes, Presidente do Conselho para as questões familiares e sociais da Conferência dos Bispos de França (homólogo, em relação à Conferência Episcopal Portuguesa, do Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social) iniciam o documento O carácter multifacetado das crises financeiras, publicado neste ano, que se segue a um outro, de 2005: Referências numa economia globalizada. Esta reflexão serviu de pano de fundo para os trabalhos da Comissão dos Assuntos Sociais da COMECE (estrutura das Conferências Episcopais da Europa comunitária em que, pela CNJP, muitas vezes tem participado o Prof. Alfredo Bruto da Costa) que, nos passados dias 8 e 9 de Outubro, promoveu uma reunião sobre «o futuro da protecção social e da política social na Europa», para a qual fui convidado como Secretário da Comissão Episcopal da Pastoral Social.

Partilho convosco algumas das questões debatidas, elencadas no final do referido documento:

  • A primeira é a questão dos mais pobres. Esta crise é tão injusta como o tipo de desenvolvimento dos últimos vinte anos. Transporta consigo as mesmas características negativas; mas ainda com uma maior violência, como é próprio das crises: aumenta as desigualdades! Uma vez mais, voltam a ser os pobres que mais sofrem. Como fazer para os proteger?

  • A subida das matérias-primas deveria favorecer os países produtores, alguns dos quais são países emergentes. Mas como organizar uma justa repartição das riquezas?

  • A vida humana está em questão quando se fala de bens destinados à alimentação. Dada a sua natureza, devem ser particularmente protegidos. Não se deveriam mesmo proibir certas actividades financeiras, para que eles não sejam objecto de especulação?

  • As crises financeiras questionam o nosso estilo de vida. É preciso rever as nossas políticas económicas e agrícolas. E, no que diz respeito ao nosso quotidiano, não podemos querer continuar a viver como se nada se passasse ao nosso lado: para quando a adopção de um modo de vida mais despojado, mais simples, mais conforme às exigências da solidariedade no mundo de hoje?

Uma última questão, tomo-a da palavra do Arcebispo Celestino Migliore, Observador Permanente da Santa Sé nas Nações Unidas, numa reunião sobre os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM): como é que se faz tudo para encontrar os fundos que podem salvar o sistema financeiro, enquanto parece impossível encontrar os que se destinam a uma intervenção eficaz no desenvolvimento de todas as regiões do mundo? «Permaneçam centrados nas prioridades do milénio!» – pedia o Arcebispo à ONU.

(Estabelecidos no ano 2000, os ODM deveriam ser cumpridos até 2015 e incluem compromissos para enfrentar a fome, os problemas de saúde materno-infantil, a SIDA, os desequilíbrios ambientais, as dificuldades na educação e as desigualdades).

P. José Manuel Pereira de Almeida
(assistente eclesiástico da Comissão Nacional Justiça e Paz)

CONSEQUÊNCIAS DO AUMENTO DE PREÇO DOS CEREAIS

Maio 17, 2008

Os países asiáticos, particularmente a China, ao produzirem toda aquele imensidão de produtos que enchem as conhecidas “ lojas dos trezentos”, espalhadas pelo mundo inteiro, levou a que milhões de agricultores abandonassem o cultivo da terra e fossem para a indústria, na procura de melhor vida. Porém, esta saída massiva de pessoas do sector primário para a indústria levou a que, designadamente, as produções mundiais de arroz, milho e trigo tivessem decrescido, o que ocasionou uma diminuição substancial dos stoks mundiais daqueles produtos, pelo que, sendo a procura superior à oferta, é uma inevitabilidade o seu aumento.
Os organismos internacionais estão já muito preocupados com a situação e alertam para a necessidade urgente de se tomarem medidas, a nível internacional e nacional, de modo que possa ser evitado o flagelo da fome nos países mais pobres do planeta, muitos deles situados no Continente Africano.
No caso específico da Guiné-Bissau, que conhecemos bem, vemos com preocupação este aumento substancial do preço do arroz, produto que é a base da alimentação do seu povo, temendo mesmo que muita, mas mesmo muita gente, não consiga sequer os meios para ter uma refeição diária, o que é trágico, especialmente para as crianças.
Face a esta realidade que, à primeira vista, parece transcender-nos, a pergunta é inevitável. Que podemos nós fazer face a um problema de âmbito mundial?!…
Eu entendo que existem, pelo menos, três aspectos em que cada um de nós pode fazer alguma coisa, e que são os seguintes:

  1. Evitar gastar dinheiro na compra de bens e produtos perfeitamente dispensáveis;
  2. Prestar renovada atenção aos casos de pobreza, que podem estar mesmo ao nosso lado, partilhando alguma coisa nossa, por exemplo com as campanhas do Banco Alimentar contra a Fome, ou com as campanhas de solidariedade com a Guiné e outros países africanos, etc…
  3. Ir pensando no uso que damos aos terrenos que herdamos de nossos pais, uma boa parte deles certamente abandonados desde a data em que os recebemos, porque é sempre bom não nos esquecermos de que a terra é de todos e não apenas nossa, pelo que o seu uso deve ter em conta a perspectiva universalista dos bens.

Como cristãos que somos não podemos, de forma nenhuma, passar ao lado desta questão, desculpando-nos com a nossa incapacidade e pequenez para fazer alguma coisa, e como militantes da Acção Católica Rural é bom não nos esquecermos de que a área do Social foi assumida pelo Movimento como preocupação do ano.

Jacinto Filipe