1º de Maio – Dia do Trabalhador e da Solidariedade

Abril 30, 2009

O 1º de Maio é celebrado mundialmente como o “Dia do Trabalhador”. Mas esta data tem uma história.

A “miséria imerecida”
Em finais do século XIX, com o início da industrialização, começaram a aparecer novos problemas relacionados com o trabalho. O Papa Leão XIII dá conta do “temível conflito” que se estava a gerar “entre o mundo do capital e o do trabalho” dando lugar a uma situação de “miséria imerecida” (encíclica “Rerum Novarum”, 15-05-1891).
Um dos principais problemas que atingiam os operários era o horário de trabalho. Trabalhava-se de sol-a-sol, como os agricultores. Alguns reformadores sociais já tinham proposto, em várias épocas, a ideia de dividir o dia em três períodos: oito horas de trabalho, oito horas de sono e oito horas de lazer e estudo, proposta que, como sempre, era vista como utópica pelos empregadores.
Com o desenvolvimento do associativismo operário, e particularmente do sindicalismo, a proposta da jornada de oito horas tornou-se um dos objectivos centrais das lutas operárias e também causa de violentas repressões e de inúmeras prisões e até morte de trabalhadores.

Os “Mártires de Chicago”

No 1º de Maio de 1886, milhares de trabalhadores de Chicago (Estados Unidos da América), tal como de muitas outras cidades americanas, foram para a rua, exigindo o horário de oito horas de trabalho por dia. No dia 4 de Maio, durante novas manifestações, uma explosão serviu de pretexto para a repressão brutal que se seguiu, que provocou mais de 100 mortes e a prisão de dezenas de operários.
Este acontecimento, que ficou conhecido como os “Mártires de Chicago”, tornou-se o símbolo e marco para uma luta que, a partir daí, se generalizou por todo o mundo.

Os novos problemas
Passados todos estes anos, a história do movimento operário continua a ser feita de avanços e recuos, vitórias e derrotas. Entre nós, a luta pelo horário de oito horas também tem uma longa história. Só em Maio de 1996 o Parlamento aprovou a lei da semana de 40 horas (oito horas diárias de segunda a sexta feira). No entanto, as horas extras e o trabalho em fins de semana, acabam muitas vezes por anular as conquistas consignadas na lei.
As novas formas de organização do trabalho, a precarização e a globalização vem trazer novos problemas que os trabalhadores têm que enfrentar.
A exploração do trabalho infantil e da mulher, bem como dos imigrantes são um desafio permanente à imaginação e à capacidade de organização e de luta dos trabalhadores.

A solidariedade
A Doutrina Social da Igreja propõe a solidariedade – a que chama “virtude” – como o meio necessário e indispensável para que a luta dos trabalhadores pela sua dignidade, seja eficaz. João Paulo II, na “Solicitude Social da Igreja” (nº 38), reconhece “como valor positivo e moral, a consciência crescente da interdependência entre os homens e as nações. O facto de os homens e as mulheres, em várias partes do mundo, sentirem como próprias as injustiças e as violações dos direitos humanos cometidas em países longínquos, que talvez nunca visitem, é mais um sinal de uma realidade interiorizada na consciência, adquirindo assim conotação moral.
Trata-se antes de tudo da interdependência apreendida como sistema determinante de relações no mundo contemporâneo, com as suas componentes – económica, cultural, política e religiosa – e assumida como categoria moral. Quando a interdependência é reconhecida assim, a resposta correlativa, como atitude moral e social e como “virtude”, é a solidariedade. Esta, portanto, não é um sentimento de compaixão vaga ou de enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas, próximas ou distantes. Pelo contrário, é a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum; ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos.”

Dia de festa
Não se pense que este dia, herdeiro de uma forte tradição de luta operária, à mistura com perseguições, prisões e até mortes, é um dia triste. Não, porque nele também se recordam as conquistas – pequenas e grandes – que os trabalhadores foram conseguindo através dos tempos. É uma longa história que sabe bem recordar e celebrar.
Os Movimentos Operários da Acção Católica – JOC e LOC/MTC – costumam celebrar o 1º de Maio como o “Dia da Solidariedade”, em que propõem aos seus membros e amigos, além de recordar e celebrar o significado histórico deste dia, a participação com um dia de salário para as despesas dos respectivos Movimentos.

Dia de S. José Operário
A Igreja quis dar a este dia de acção e de festa – “A Festa do Trabalho” – uma dimensão de fé. Em 1955, o Papa Pio XII instituiu a Festa de S. José Operário, a ser celebrada precisamente no dia 1 de Maio de cada ano.

Publicado no site http://www.ecclesia.pt, e assinado por Horácio Noronha, Assistente Nacional da LOC/MTC

O 1º de Maio de 1886 em Chicago – O 1º Dia do Trabalhador em Portugal, depois do 25 de Abril de 1974 (a 2ª foto está no site da Fundação Mário Soares) – Os cartazes do 1º de Maio de 2008 das duas Centrais Sindicais

PROJECTO “IGREJA SOLIDÁRIA”

Abril 27, 2009

Em cada Paróquia um Grupo de Acção Social.

O Cardeal Patriarca, na 6ª feira passada, dia 17, convocou, para o Centro  Diocesano de Espiritualidade, os Párocos, levando cada um consigo um leigo, para um Encontro sobre a acção sócio-caritativa como resposta à crise. Fez a apresentação e debate dum Projecto “Igreja Solidária“; para reforçar a capacidade da Igreja Diocesana dar resposta às novas situações da crise. Estamos conscientes de que a actual crise económico-financeira está a gerar graves situações sociais. Porém, também devemos estar conscientes de que a crise financeira é uma crise da sociedade que pôs o dinheiro acima de tudo: dinheiro por cima do amor, da vida em comunidade e da sustentabilidade do nosso planeta. Promoveu-se o consumo e agora abandonam-se milhões de consumidores na ratoeira das suas dívidas. Valorizou-se mais os lucros do capital, mais do que o direito à habitação, à educação e à saúde. Por meio de taxas de juros, comerciantes de dinheiro sem escrúpulos, aí estão hoje condenados por milhões de pessoas – roubadas do seu dinheiro, das suas reformas, das suas casas e do seu futuro. Geraram uma trágica crise do sistema financeiro mundial.  Uma vez que o sistema faliu, não há que remendar. Há que criar outras instituições, com novos objectivos, novos meios, novas regras que respeitem a dignidade das pessoas e dos povos.

Neste encontro afirmou-se que esta falência do sistema foi gerada pela ganância: “a avidez excessiva do lucro e a sede do poder…a qualquer preço” (SRS 37).Temos de mudar. Temos de mudar o estilo de vida – mudar é preciso, escrevia-vos eu em Fevereiro, no Farol 25. Perante as falências financeiras, encerramento de empresas às centenas, consequente aumento do desemprego e da fome, o Sr Patriarca com o Departamento da Pastoral Sócio-Caritativa, apresentou, à apreciação, o Projecto “Igreja Solidária“. Em vez de lamentações temos de arregaçar as mangas e meter mãos ao trabalho. Esta crise é uma oportunidade para mudarmos de estilo de vida. Temos de mudar hábitos culturais e cultuais, quer dizer que se estávamos habituados a comprar coisas de marca, temos de o deixar de fazer e em vez de trocarmos de coisas (por ex., carro, fatos, etc…) tão repetidamente, temos de o fazer, só quando, já estiverem gastas. Não podemos fazer todas as vontades aos meninos, alimentando facilitismos aos filhos, mas há que dar-lhes referências do bem comum, da fraternidade, da justiça, do respeito e da verdade…dos valores que dignificam as pessoas e a sociedade.

Com o Projecto, as Paróquias devem estimular a criação de respostas imediatas.  Para isso todas as Paróquias devem ter Grupos de Acção Social. São eles que  proporcionam o primeiro conhecimento. Cabe-lhes fazer um levantamento das situações, especialmente as da pobreza envergonhada que exige muita delicadeza e discrição e o primeiro contacto com os «casos sociais»;é a partir deles que se efectua o  primeiro apoio; eles são mediadores junto de outras entidades; e são também eles que efectuam o acompanhamento de cada «caso» até se alcançar uma solução satisfatória. Através deles, os cristãos, à semelhança do «Bom Samaritano»,  podem realmente ser «próximos» de quem precisa.

P. Batalha