A POBREZA INTERPELA OS CRISTÃOS

Outubro 29, 2010

A convite do Presidente da Cáritas Diocesana de Aveiro, o Diácono Permanente Sr. José Alves, dois elementos do Grupo do Diálogo Social participaram num encontro dos Grupos Cáritas da Diocese, o qual teve lugar no Salão da Sé de Aveiro, no sábado dia 9 de Outubro de 2010, sob o tema “ O papel dos Grupos de Acção Social na Paróquia”.

A cada grupo participante foi entregue um exemplar do livro da autoria do Núcleo do Diálogo Social, intitulado: “Acção Social na Paróquia”.

O encontro iniciou-se com uma breve leitura bíblica, seguida da exibição do pequeno filme da apresentação do referido livro. Foi depois feita uma pequena exposição sobre o papel dos cristãos face às situações de pobreza, com, o título: “A Pobreza interpela os Cristãos”, cujo texto abaixo passamos a reproduzir.

Para além dos diversos tipos de apoios, materiais, humanos e espirituais, que os pobres e os excluídos precisam, uma questão importante merece uma particular atenção: em que medida a actividade exercida pelos Grupos Caritas e de Acção Social tem contribuído para que os pobres reconquistem a sua autonomia de vida, incluindo a auto-suficiência em matéria de recursos, e os excluídos atinjam o pleno exercício da cidadania, em relação aos outros e ao mercado de trabalho.

Aos Grupos Caritas e de Acção Social compete actuarem nas causas, pessoais ou colectivas, que geram os diversos tipos de pobreza; a tendência generalizada dos Grupos é a de se limitarem às dádivas de alguns bens alimentares e roupas, muitas delas mais não são que umas simples “sobras”, e por isso mesmo, muito pouco têm a ver com o destino universal dos bens e a justa distribuição da riqueza.

São Causas de Pobreza:

– O Desemprego

– A falta de qualificação profissional e o desinteresse pelo aprender sempre mais

– O Trabalho remunerado injustamente

– A doença e as limitações físicas

– A velhice e as baixas pensões dos reformados

– A confusão entre Trabalho e Emprego. Não existem empregos, mas no nosso país não há muito trabalho por fazer?……

– O Alcoolismo, Drogas e outras dependências

– Os que não querem trabalhar e são subsídio-dependentes

– A má gestão dos recursos financeiros que resulta, sobretudo, da incapacidade de discernir sobre o que é essencial e o que é secundário.

Se aos Grupos Caritas e de Acção Social compete prestarem o apoio directo às pessoas, na procura de condições de vida digna, também lhes cabe a tarefa importante da humanização das estruturas sócio-políticas que têm a seu cargo o apoio aos mais carenciados e marginalizados, como são a Família, Autarquias locais, Centros de Dia e Lares, Associações de carácter humanitário, Hospitais, Misericórdias, etc..etc…

A pobreza combate-se, sobretudo, por uma aposta séria no desenvolvimento integral das pessoas. E esse desenvolvimento passa pela:

– Colectividade da aldeia ou da vila. Quando as associações de carácter desportivo e recreativo só se limitam à venda duns copos, ou à promoção de espectáculos brejeiros e de baixo nível, e não desenvolvem actividades que promovam a saúde física e mental das pessoas e não se preocupam com a valorização criativa dos tempos livres, não cumprem o papel que lhes cabe no desenvolvimento dos seus associados.

– A Escola não se pode preocupar apenas em ensinar coisas, mas deve transmitir valores, ensinar a fazer, ensinar a estar na vida, a relacionar o saber com a vida, porque é por aí que passam a cultura dos homens e mulheres do amanhã.

– A Igreja, não pode passar a vida a pregar preceitos e dogmas mas deve apontar valores, deve denunciar as injustiças, mesmo que isso possa parecer mal ao poder político, e deve, sobretudo, fazer exigências transformadoras e coerentes com a Fé em Jesus Cristo, gritando nestes tempos conturbados de crise, a Esperança.

– A Autarquia, para que tenha sempre presente que as pessoas são mais importantes do que o cimento ou o alcatrão, não gastando grande parte dos seus recursos em obras de fachada, mas sim com as pessoas, muito embora isso possa dar menos votos.

– A Família tem o papel imprescindível de educar para os valores, sendo capaz de dizer o SIM ou o NÃO na hora certa, sem hesitações e sem chantagens, ensinando e valorizando o trabalho dos filhos, fazendo-os compreender o valor das coisas. É mesmo em criança que se deve aprender a ser justo e solidário com os outros.

É papel importante dos Grupos Caritas e de Acção Social:

– Explicarem às pessoas o valor das coisas, de modo que estas, com lucidez, saibam distinguir o essencial do secundário. Muita da pobreza do nosso país resulta dessa falta de capacidade de discernimento;

– Partilharem a sua acção com outros grupos Caritas, de modo que os sucessos ou os fracassos duns, possam ser imitados ou evitados por outros;

– Fazer um levantamento exaustivo dos casos de pobreza existentes no espaço de influência do grupo, procurando encontrar as suas verdadeiras causas e consequências, de modo que o agir seja assertivo. Aqui o método do Ver, Julgar e Agir é o mais adequado;

– Nunca se deixarem enredar naquela de que “na minha terra não há pobres”. A fulana vai ao café todos os dias, o outro fuma que nem um desalmado e é pobre!”……. Histórias destas ouvem-se às carradas; isto é conversa de quem não está disposto a olhar o outro como irmão; isto é só e apenas desculpas de “mau pagador”. Não serão estes comportamentos também uma consequência grave da pobreza?!…..

– Não entrar naquela “do que posso eu fazer perante a imensidão dos problemas, eu não sou capaz, não tenho meios, de que vale a minha ajuda, ela não é mais do que um grão de areia no deserto dos problemas”; ou de que o Estado que faça, ele é que tem o dever de atender a estas situações, eu não!……

– A todos estes Grupos – Caritas e de Acção social – também se pede que não esqueçam a dimensão internacional da pobreza, e na medida do possível, colaborem nas missões de solidariedade que diversas entidades levam a efeito – caso Guiné-Bissau.

– À Igreja em geral, e aos Grupos Caritas e de Acção Social em particular, é pedido que sejam criativos nas ajudas que prestam, de modo que possam dar respostas mais eficazes na resolução dos problemas graves de pobreza como, por exemplo:

– Constituindo um banco de alimentos, roupa, móveis, para os mais carenciados;

– Criando uma lavandaria colectiva para os mais pobres;

– Um banco de medicamentos, onde as sobras de uns pudessem servir a outros, desde que acauteladas as respectivas competências técnicas;

– Criando serviços de apoio às pessoas reformadas e com menos mobilidade, nas diversas áreas dos cuidados continuados;

– Mas, simultaneamente, nunca podem esquecer de manter bem vivo e coerente, o combate e a denúncia dos factores de injustiça que geram a pobreza e a exclusão social.

Afinal a nossa maneira de estar na vida, os nossos comportamentos em sociedade, a nossa coerência de Fé em Jesus Cristo, têm muito a ver com todas estas questões da pobreza!……

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A CRISE E OS POBRES

Dezembro 11, 2008

pao«As crises financeiras que se sucedem têm um efeito de cascata que afecta profundamente a economia mundial e as populações mais frágeis. Mostram que a finança é um factor chave da globalização».

Estas afirmações do Arcebispo de Rouen, Jean-Charles Descubes, Presidente do Conselho para as questões familiares e sociais da Conferência dos Bispos de França (homólogo, em relação à Conferência Episcopal Portuguesa, do Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social) iniciam o documento O carácter multifacetado das crises financeiras, publicado neste ano, que se segue a um outro, de 2005: Referências numa economia globalizada. Esta reflexão serviu de pano de fundo para os trabalhos da Comissão dos Assuntos Sociais da COMECE (estrutura das Conferências Episcopais da Europa comunitária em que, pela CNJP, muitas vezes tem participado o Prof. Alfredo Bruto da Costa) que, nos passados dias 8 e 9 de Outubro, promoveu uma reunião sobre «o futuro da protecção social e da política social na Europa», para a qual fui convidado como Secretário da Comissão Episcopal da Pastoral Social.

Partilho convosco algumas das questões debatidas, elencadas no final do referido documento:

  • A primeira é a questão dos mais pobres. Esta crise é tão injusta como o tipo de desenvolvimento dos últimos vinte anos. Transporta consigo as mesmas características negativas; mas ainda com uma maior violência, como é próprio das crises: aumenta as desigualdades! Uma vez mais, voltam a ser os pobres que mais sofrem. Como fazer para os proteger?

  • A subida das matérias-primas deveria favorecer os países produtores, alguns dos quais são países emergentes. Mas como organizar uma justa repartição das riquezas?

  • A vida humana está em questão quando se fala de bens destinados à alimentação. Dada a sua natureza, devem ser particularmente protegidos. Não se deveriam mesmo proibir certas actividades financeiras, para que eles não sejam objecto de especulação?

  • As crises financeiras questionam o nosso estilo de vida. É preciso rever as nossas políticas económicas e agrícolas. E, no que diz respeito ao nosso quotidiano, não podemos querer continuar a viver como se nada se passasse ao nosso lado: para quando a adopção de um modo de vida mais despojado, mais simples, mais conforme às exigências da solidariedade no mundo de hoje?

Uma última questão, tomo-a da palavra do Arcebispo Celestino Migliore, Observador Permanente da Santa Sé nas Nações Unidas, numa reunião sobre os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM): como é que se faz tudo para encontrar os fundos que podem salvar o sistema financeiro, enquanto parece impossível encontrar os que se destinam a uma intervenção eficaz no desenvolvimento de todas as regiões do mundo? «Permaneçam centrados nas prioridades do milénio!» – pedia o Arcebispo à ONU.

(Estabelecidos no ano 2000, os ODM deveriam ser cumpridos até 2015 e incluem compromissos para enfrentar a fome, os problemas de saúde materno-infantil, a SIDA, os desequilíbrios ambientais, as dificuldades na educação e as desigualdades).

P. José Manuel Pereira de Almeida
(assistente eclesiástico da Comissão Nacional Justiça e Paz)

CONSEQUÊNCIAS DO AUMENTO DE PREÇO DOS CEREAIS

Maio 17, 2008

Os países asiáticos, particularmente a China, ao produzirem toda aquele imensidão de produtos que enchem as conhecidas “ lojas dos trezentos”, espalhadas pelo mundo inteiro, levou a que milhões de agricultores abandonassem o cultivo da terra e fossem para a indústria, na procura de melhor vida. Porém, esta saída massiva de pessoas do sector primário para a indústria levou a que, designadamente, as produções mundiais de arroz, milho e trigo tivessem decrescido, o que ocasionou uma diminuição substancial dos stoks mundiais daqueles produtos, pelo que, sendo a procura superior à oferta, é uma inevitabilidade o seu aumento.
Os organismos internacionais estão já muito preocupados com a situação e alertam para a necessidade urgente de se tomarem medidas, a nível internacional e nacional, de modo que possa ser evitado o flagelo da fome nos países mais pobres do planeta, muitos deles situados no Continente Africano.
No caso específico da Guiné-Bissau, que conhecemos bem, vemos com preocupação este aumento substancial do preço do arroz, produto que é a base da alimentação do seu povo, temendo mesmo que muita, mas mesmo muita gente, não consiga sequer os meios para ter uma refeição diária, o que é trágico, especialmente para as crianças.
Face a esta realidade que, à primeira vista, parece transcender-nos, a pergunta é inevitável. Que podemos nós fazer face a um problema de âmbito mundial?!…
Eu entendo que existem, pelo menos, três aspectos em que cada um de nós pode fazer alguma coisa, e que são os seguintes:

  1. Evitar gastar dinheiro na compra de bens e produtos perfeitamente dispensáveis;
  2. Prestar renovada atenção aos casos de pobreza, que podem estar mesmo ao nosso lado, partilhando alguma coisa nossa, por exemplo com as campanhas do Banco Alimentar contra a Fome, ou com as campanhas de solidariedade com a Guiné e outros países africanos, etc…
  3. Ir pensando no uso que damos aos terrenos que herdamos de nossos pais, uma boa parte deles certamente abandonados desde a data em que os recebemos, porque é sempre bom não nos esquecermos de que a terra é de todos e não apenas nossa, pelo que o seu uso deve ter em conta a perspectiva universalista dos bens.

Como cristãos que somos não podemos, de forma nenhuma, passar ao lado desta questão, desculpando-nos com a nossa incapacidade e pequenez para fazer alguma coisa, e como militantes da Acção Católica Rural é bom não nos esquecermos de que a área do Social foi assumida pelo Movimento como preocupação do ano.

Jacinto Filipe